Lula questiona campanha da Globo sobre fome no Brasil: “Quem está contando essa mentira?”
Presidente questionou campanha “Comida no prato hoje muda o futuro”, do Instituto Pacto Contra a Fome; relatório da ONU aponta que o Brasil segue fora do Mapa da Fome, com redução histórica da insegurança alimentar severa
Crédito: Canal Gov / Tv Globo O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou uma campanha publicitária exibida pela TV Globo que aborda a fome no Brasil e questionou os números apresentados na peça. Durante discurso nesta sexta-feira (6), o presidente demonstrou indignação com a informação de que 7 milhões de crianças passam fome no país e cobrou uma investigação sobre a entidade responsável pela iniciativa.
A campanha criticada por Lula se chama “Comida no prato hoje muda o futuro” e foi lançada pelo Instituto Pacto Contra a Fome. A iniciativa é a primeira comunicação da organização voltada à arrecadação de doações financeiras de pessoas físicas e empresas, com o objetivo de mobilizar a sociedade para o combate à insegurança alimentar.
Lula contou que estava em casa, assistindo à televisão, quando se deparou com a publicidade. Segundo ele, a informação chamou sua atenção, principalmente pelo fato de a campanha apresentar o apoio da Rede Globo de Televisão.
“Eu quero que você investigue para saber quem é essa entidade que a Globo está apoiando. Quem é que está contando essa mentira?”, questionou o presidente.
Ao comentar o assunto, Lula defendeu as políticas públicas de combate à fome e destacou a qualidade da merenda escolar oferecida nas escolas brasileiras, além dos programas voltados à alimentação das crianças. O presidente também cobrou que a informação divulgada pela campanha seja esclarecida.
“Dizer que tem 7 milhões de crianças passando fome, eu te perguntarei pelo pé. Se isso é verdade, eu quero que você mostre que a Globo está mentindo”, afirmou.
Campanha foi criada pela Africa Creative
O filme publicitário foi desenvolvido pela agência Africa Creative, com Sergio Gordilho como CCO e Sergio Fonseca na direção de criação. De acordo com o instituto, a campanha busca chamar a atenção da sociedade para a urgência da fome e incentivar contribuições financeiras permanentes de pessoas e empresas.
“A campanha tem como objetivo chamar a atenção de toda a sociedade para a urgência do tema da fome e mobilizar pessoas e empresas para esta causa, mostrando que cada contribuição importa”, afirmou Nelson Gonçalves Junior, head de comunicação e marketing do Pacto Contra a Fome.
A campanha também contou com a participação de Raphael Vandystadt, diretor de relações institucionais da Africa Creative, que destacou a intenção de estimular uma cultura de solidariedade no país.
Após a repercussão das declarações do presidente, o material da campanha foi removido do site e do canal do instituto no YouTube.
O que dizem os dados sobre a fome no Brasil?
Os números apresentados pelo Pacto Contra a Fome têm como referência dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o módulo de Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgado em outubro de 2025, a proporção de domicílios em situação de insegurança alimentar grave caiu de 4,1% em 2023 para 3,2% em 2024, uma redução de 21,95%.
Em números absolutos, a quantidade de domicílios nessa condição passou de 3,1 milhões para 2,5 milhões. O levantamento aponta que aproximadamente 624 mil famílias deixaram a situação de insegurança alimentar grave no período.
A pesquisa estimou que o Brasil tinha 78,3 milhões de domicílios particulares em 2024. Desse total, 75,8% estavam em situação de segurança alimentar, enquanto 24,2% conviviam com algum grau de insegurança, de leve a grave.
Apesar da redução, o Pacto Contra a Fome estima que 6,4 milhões de pessoas ainda vivem em situação de fome no país. A organização também aponta que cerca de 2 milhões de brasileiros deixaram essa condição no período analisado.
Os dados mostram ainda que a insegurança alimentar grave é mais frequente em áreas rurais, onde atingiu 4,6% dos domicílios, contra 3% nas áreas urbanas.
Brasil permanece fora do Mapa da Fome da ONU
O Brasil também permanece fora do Mapa da Fome, segundo o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026” (SOFI), elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em conjunto com outras agências da ONU. O documento, divulgado em 21 de julho de 2026, considera dados referentes ao triênio 2023-2025.
De acordo com o relatório, o país manteve abaixo de 2,5% a proporção da população que não possui renda ou acesso suficiente para consumir a quantidade mínima de calorias necessária para uma vida saudável. Esse é o indicador de Prevalência de Subnutrição (PoU), utilizado pela FAO para definir a presença de países no Mapa da Fome.
O levantamento também apontou uma redução expressiva da insegurança alimentar severa no Brasil, que chegou a 0,6%, o menor patamar da série histórica. Segundo os dados, 16,7 milhões de pessoas deixaram essa condição no triênio 2023-2025.
A trajetória de queda aparece nos levantamentos dos últimos períodos: a insegurança alimentar severa atingiu 6,6% entre 2021 e 2023, caiu para 3,4% entre 2022 e 2024 e chegou a 0,6% entre 2023 e 2025.
Outro indicador positivo foi a redução da proporção de brasileiros que não conseguem pagar por uma alimentação saudável, que ficou em 21,1% no triênio encerrado em 2025. O custo de uma dieta saudável no país foi estimado em US$ PPC 4,89 por pessoa ao dia, abaixo das médias da América do Sul (US$ 4,94) e da América Latina e Caribe (US$ 4,91).
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