Escritor e psicanalista transforma três separações amorosas em reflexão sobre identidade e reconstrução emocional
No livro “Não Procure Seu Ex, Procure Seu Eu”, Mário Frazão une experiências pessoais e conhecimentos da psicanálise para discutir o sofrimento provocado pelo fim de relacionamentos e a importância de reencontrar a própria identidade após uma ruptura
Crédito: divulgação O fim de um relacionamento nem sempre representa apenas a perda de alguém que se ama. Em muitos casos, também significa perder planos, rotinas, projetos compartilhados e até a versão de si mesmo construída ao lado de outra pessoa. É a partir dessa perspectiva que o escritor, editor e psicanalista Mário Frazão desenvolve o livro Não Procure Seu Ex, Procure Seu Eu, uma obra que propõe um olhar mais profundo sobre as dores da separação e os caminhos para a reconstrução emocional.
A inspiração para o trabalho também vem de sua própria trajetória. Homem gay, Mário viveu três relacionamentos que considera verdadeiros casamentos, marcados pela convivência, pelo compartilhamento de casas e pela construção de projetos de vida com seus companheiros. As três separações trouxeram experiências distintas de perda e recomeço, que se somaram à sua vivência profissional no acompanhamento de pessoas em sofrimento amoroso.
Com formação em Letras e Linguística e atuação na psicanálise, o autor utiliza conceitos de importantes pensadores, como Sigmund Freud, Jacques Lacan, Melanie Klein e Wilfred Bion, para investigar por que o término de uma relação pode provocar sentimentos tão intensos, mesmo quando a continuidade daquele vínculo já não é possível.
“Quando uma relação termina, perdemos alguém que amamos, mas também podemos perder a imagem que construímos de nós mesmos ao lado daquela pessoa. Em algumas relações, o outro ocupa um lugar tão importante na sustentação da nossa identidade que sua partida parece levar consigo uma parte de quem somos”, explica Frazão.
O sofrimento de quem fica
Um dos pontos centrais do livro é a compreensão de que o sofrimento após uma separação vai além da saudade ou da ausência física do antigo parceiro. A partir do conceito de luto, desenvolvido por Freud, o psicanalista aborda como o rompimento pode revelar fragilidades na maneira como cada pessoa constrói sua própria identidade.
Entre as reações que podem surgir estão sentimentos intensos de rejeição, fantasias de reconciliação, comportamentos obsessivos e a necessidade constante de encontrar explicações para o fim da relação.
O autor também destaca uma particularidade do término amoroso: diferentemente da morte, a separação envolve alguém que continua vivo, presente no mundo e que pode seguir construindo novas histórias afetivas. É uma experiência de luto por alguém que permanece existindo, mas já não ocupa o mesmo lugar na vida de quem ficou.
A experiência LGBTQIAPN+ e os modelos de relacionamento
A obra também apresenta reflexões sobre as experiências afetivas da população LGBTQIAPN+. Embora as dores de uma separação atravessem pessoas de diferentes orientações sexuais e identidades de gênero, o autor chama atenção para como questões de reconhecimento, pertencimento e aceitação podem influenciar a construção dos vínculos amorosos.
Entre os aspectos abordados está a realidade de homens gays com mais de 40 anos, que cresceram tendo como principais referências de relacionamento os modelos heteronormativos presentes nas famílias, nos círculos sociais e na cultura popular, reproduzidos em filmes, novelas e desenhos animados.
Nesse contexto, construir uma identidade afetiva e experimentar outras possibilidades de amor também pode envolver desafios particulares. A trajetória de Mário, que viveu três relações duradouras com homens, contribui para essa discussão a partir de uma perspectiva pessoal, sem pretender representar todas as experiências homoafetivas.
A proposta: olhar para si antes de procurar o ex
O título Não Procure Seu Ex, Procure Seu Eu resume a principal provocação apresentada pelo escritor: antes de tentar recuperar uma relação que terminou, é importante compreender o que aconteceu consigo mesmo durante e depois daquele vínculo.
A proposta não é condenar reconciliações ou afirmar que todo relacionamento encerrado precisa permanecer no passado. O autor diferencia o desejo genuíno de reconstruir uma relação da necessidade de ter o outro de volta como forma de superar a rejeição, recuperar a autoestima ou preencher um sentimento de abandono.
A reflexão também questiona por que algumas pessoas permanecem durante meses ou até anos esperando por uma reconciliação, mesmo quando não existem sinais concretos de que a relação possa ser retomada de maneira saudável.
Ao transformar suas próprias experiências e os conhecimentos adquiridos na clínica em reflexão, Mário Frazão propõe que o fim de um relacionamento também pode ser uma oportunidade de autoconhecimento.
Mais do que esquecer alguém, o desafio está em reconhecer o que foi depositado naquela relação, recuperar aspectos da própria identidade e descobrir novas possibilidades de existir depois de uma história de amor.
Sobre o autor
Mário Frazão é escritor, editor, mestre em Letras e Linguística e psicanalista. Também atua como ghostwriter e mentor de escritores. É autor de Não Procure Seu Ex, Procure Seu Eu, livro que aborda os términos amorosos a partir de conceitos da psicanálise, explorando temas como luto, identidade, desejo, rejeição e reconstrução emocional.






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