Influenciadores ocupam espaços da imprensa e reacendem debate sobre o futuro do jornalismo
Entre likes, algoritmo e informação: profissionais discutem os impactos da influência digital no jornalismo
Crédito: Portal Viggo A crescente presença de influenciadores digitais em espaços tradicionalmente ocupados pela imprensa profissional voltou a provocar debates intensos no universo da comunicação. Em coletivas de imprensa, coberturas de eventos, festivais culturais, entrevistas exclusivas e até em grandes transmissões televisivas, criadores de conteúdo passaram a disputar, e muitas vezes substituir, jornalistas profissionais em funções historicamente ligadas à apuração e à informação.
O assunto voltou à tona neste fim de semana após dois episódios que repercutiram nas redes sociais e reacenderam discussões sobre ética, preparo técnico, responsabilidade social e os limites entre entretenimento e jornalismo.
O primeiro caso envolveu o jornalista esportivo Juca Kfouri, que criticou publicamente a decisão da TV Globo de escalar a influenciadora Virginia Fonseca como repórter especial da cobertura da Copa do Mundo de 2026.
Durante comentário, Juca afirmou que a escolha representa “uma violência contra o jornalismo”. Para ele, a emissora estaria priorizando entretenimento, alcance digital e popularidade em detrimento da formação profissional e da experiência jornalística.
“É a escolhambação do entretenimento, mas 100% no lugar do jornalismo”, afirmou o comentarista.
Na sequência, Juca revelou ter conversado com uma jovem jornalista revoltada com a situação. “Imagina você estudar jornalismo por anos, se especializar, correr atrás da profissão e, no fim, quem vai cobrir um dos maiores eventos esportivos do mundo é a Virgínia”, declarou.
O jornalista ainda ironizou a participação da influenciadora na CPI das Bets, realizada no Senado Federal. “Essa é a repórter especial da TV Globo durante a Copa do Mundo em 2026”, disparou.
Outro episódio que movimentou as redes ocorreu durante o Festival da Cunhã, realizado em Manaus. Durante entrevista com a cantora Gretchen, o influenciador Roosevelt Pinheiro, que se apresenta como repórter nas redes sociais, mas não é jornalista, utilizou pronomes femininos ao se referir ao vereador Thammy Miranda, filho da artista.
“O Thammy”, corrigiu Gretchen imediatamente, interrompendo a pergunta.
Após pedir desculpas, o influenciador seguiu a entrevista, mas voltou a fazer um questionamento considerado desatualizado sobre a trajetória artística do vereador. Mais uma vez, Gretchen precisou intervir e explicou que o filho atua exclusivamente na política há anos.
Os episódios reacenderam uma discussão antiga no mercado da comunicação: influenciadores podem ocupar espaços tradicionalmente destinados ao jornalismo profissional?
O PORTAL VIGGO ouviu jornalistas, professores universitários, assessores de comunicação e profissionais da área para entender como o mercado enxerga essa transformação.
“Nem tudo vale clicks”

A jornalista Bianca Teixeira acredita que influenciadores não podem ser considerados jornalistas e defende que a profissão exige preparo técnico, responsabilidade e ética profissional.
“Não podem. Ser jornalista exige estudo, conhecimento teórico e prático. Lidar com a informação e, consequentemente com o outro, porque sempre estamos a retratar algo ou alguém, nao pode jamais ser visto como algo superficial. Exige ética, senso, conhecimento de termos, significados. É preciso saber o limite até da informação. O que pode é jornalista ser influenciador pelo seu poder narrativo.”
Segundo Bianca, a principal diferença entre influenciadores e jornalistas está no peso da responsabilidade social envolvida na profissão.
“A principal diferença é o peso da responsabilidade em saber apurar, entender o limite, a ética profissional e humana. Entender que nem tudo vale clicks, existem valores sociais e moraes acima disso tudo. Até porque internet é casa alugada.”
Ela também demonstra preocupação com o crescimento da atuação de influenciadores em espaços tradicionalmente ocupados pela imprensa profissional.
“Preocupante pois tem sido feito de forma não regulamentada e isso gera um impacto social/mental que a médio e longo prazo pode ser tornar irreversível.”
Para Bianca, a presença crescente de influenciadores em coletivas, eventos e coberturas enfraquece o jornalismo.
“Enfraquece, pois disputamos espaços com algumas pessoas que estão no local sem entender o grau de motivação e importância do tema a ser abordado.”
Apesar das críticas, ela reconhece que o jornalismo precisou se reinventar diante das transformações digitais.
“O jornalismo precisou se adaptar em todas as esferas evolutivas da comunicação e a internet é apenas mais uma delas. A notícia pode estar em todo o lugar, mas o olhar crítico sobre a mesma só uma pessoa treinada tem. E isso vale pra qualquer plataforma a ser utilizada como meio.”
“O jornalista se tornou influenciador, não o contrário”

A jornalista e assessora Vanessa de Sousa acredita que houve uma confusão natural entre as profissões ao longo das transformações digitais, mas reforça que influenciador e jornalista possuem funções completamente diferentes.
“Influenciadores não são jornalistas, a não ser quando passam pelo processo de formação e adotam os critérios da profissão. O que aconteceu foi justamente o contrário: muitos jornalistas se tornaram influenciadores ao longo das mudanças da comunicação”, afirmou.
Vanessa acredita que ambas as áreas podem coexistir e até se complementar, mas destaca que o jornalismo possui responsabilidades específicas que vão além da simples comunicação.
“O jornalista trabalha com apuração, checagem e responsabilidade sobre o impacto da informação. Existe método, técnica e compromisso com a veracidade. Já o influenciador atua muito mais no campo da percepção, da opinião e da conexão com a audiência”, explicou.
Ela relembra que o impacto das redes sociais no mercado da comunicação foi extremamente forte, especialmente para profissionais formados em um modelo tradicional de imprensa.
“O digital trouxe velocidade e imediatismo. Isso furou a lógica tradicional da imprensa em questão de segundos. Muitos profissionais ficaram pelo caminho porque o mercado mudou rápido demais”, disse.
Vanessa afirma que viveu pessoalmente essa transição. “Sou o que gosto de chamar de jornalista raiz. Passei mais de 20 anos em redação e precisei me reinventar completamente no digital”, contou.
Apesar disso, ela acredita que o mercado amadureceu nos últimos anos. “Hoje vejo um cenário mais equilibrado. Quando bem utilizados, jornalista e influenciador podem se complementar”, afirmou.
“Não há coletivas de influenciadores, mas de imprensa”

A jornalista e assessora de imprensa Elaine Gomes acredita que influenciadores digitais não podem ser considerados jornalistas, mesmo diante das mudanças do mercado da comunicação.
“Embora o diploma não seja mais uma exigência pra prática de jornalismo, nenhum influenciador pode ser considerado jornalista. Podem disseminar conteúdos dentro das áreas que representam (quando eles têm alguma especialidade), mas estão longe de ser considerado como prática do jornalismo”.
Segundo Elaine, a principal diferença entre jornalistas e influenciadores está no compromisso com a apuração e com o contraditório.
“Embora a isenção seja vital, há quem defenda que nem todos os veículos são isentos, então vou deixar esse quesito de lado. O jornalismo pede que se ouça dois lados e que abra espaço ao contraditório, além de checar todos os dados que apresenta; coisa que, em regra, nunca vi nenhum influencer fazer”.
Para ela, o impacto do crescimento desse movimento é negativo tanto para a profissão quanto para quem consome informação.
“É péssimo, não somente para os jornalistas, mas para quem consome informação enviesada, mal elaborada e sem checagem de dados.”
Elaine também acredita que a presença crescente de influenciadores em coletivas, eventos e coberturas enfraquece a legitimidade do jornalismo profissional.
“Enfraquece, uma vez que não há coletivas de influenciadores, mas de imprensa. Não há que se misturar as coisas nem contaminar a legitimidade que o jornalismo bem feito traz”.
Ela afirma ainda que o jornalismo precisou se fortalecer diante do avanço da desinformação nas redes sociais. “Insistindo na checagem de dados e na luta incansável contra a desinformação.”
“O jornalista responde à sociedade; o influenciador, muitas vezes, ao algoritmo”

O gestor de mídias da Unama e professor de Comunicação Social, Mário Camarão, acredita que influenciadores não podem ser considerados jornalistas, principalmente pela diferença de formação e responsabilidade existente entre as duas profissões.
“Jornalismo exige formação, técnica, ética, responsabilidade social e compromisso com a apuração dos fatos. O influenciador pode comunicar e mobilizar pessoas, mas isso não o torna automaticamente jornalista”.
Segundo Mário, a democratização da comunicação proporcionada pelas redes sociais é positiva, mas também trouxe preocupações relacionadas à falta de preparo técnico de muitos criadores de conteúdo.
“Eu defendo a democratização da informação e as múltiplas vozes nas redes. O problema é quando muitos ocupam esse espaço sem compreender a responsabilidade do que comunicam. Já vimos influenciadores espalhando desinformação, fake news, julgamentos precipitados e conteúdos sem qualquer checagem, muitas vezes priorizando engajamento em vez da verdade.”
Ele reforça que o jornalista possui uma preparação voltada justamente para compreender o impacto social da informação.
“O jornalista é preparado para entender o impacto social da informação. Comunicação exige responsabilidade, ética e consciência sobre as consequências do que se publica.”
Para Mário Camarão, a principal diferença entre influenciadores e jornalistas está nos critérios profissionais e no compromisso com o interesse público.
“O jornalista trabalha fundamentado em critérios técnicos, ética profissional, interesse público e responsabilidade social. Existe preparo para apurar, ouvir diferentes lados, contextualizar fatos e compreender as consequências da informação divulgada.”
Ele também reconhece que não existe imparcialidade absoluta, mas afirma que o jornalismo profissional busca constantemente ouvir diferentes versões dos fatos.
“Apesar que sabemos claramento que não existe imparcialidade, há uma tentativa sempre de ouvir os dois lados do fato, da notícia.”
Segundo o professor, os influenciadores costumam atuar muito mais baseados em opinião pessoal e engajamento.
“Já o influenciador, na maioria das vezes, atua a partir da opinião, da experiência pessoal e do engajamento. O foco costuma estar na audiência e na repercussão. Isso não é necessariamente negativo, mas é diferente do compromisso jornalístico.”
Mário resume a diferença entre as duas atuações em uma frase que considera central para o debate atual sobre comunicação digital.
“O jornalista responde à sociedade. O influenciador, muitas vezes, responde ao algoritmo. Isso me preocupa quando estamos falando de informação para um grande público.”
Apesar das críticas, ele acredita que o avanço dos influenciadores e das redes sociais é um movimento irreversível.
“É um movimento irreversível. Mas que vejo positivamente para o crescimento e aperfeiçoamento do próprio jornalismo. A internet democratizou a fala e ampliou vozes, o que é positivo.”
Ao mesmo tempo, ele alerta para os impactos negativos provocados pela velocidade da informação nas redes sociais.
“Porém, também trouxe superficialidade, desinformação e uma crise de credibilidade em muitos espaços.”
Segundo Mário, a facilidade de viralização aumentou a necessidade de valorização do jornalismo profissional.
“Hoje, qualquer pessoa consegue viralizar um conteúdo, mas nem todos possuem preparo para lidar com informação pública. Falta, muitas vezes, conhecimento técnico, ética e noção do impacto social do que está sendo publicado.”
Ele acredita que esse cenário reforça a importância da formação acadêmica na área da comunicação.
“Isso exige ainda mais valorização do jornalismo profissional e da formação acadêmica na área da comunicação.”
Mário também destaca que os jornalistas precisaram se reinventar completamente nos últimos anos para acompanhar as mudanças do ambiente digital.
“O jornalista precisou se reinventar completamente. Hoje ele precisa dominar múltiplas linguagens, compreender redes sociais, produzir conteúdo em diferentes formatos e dialogar com um público cada vez mais imediato e conectado.”
“O influenciador consegue comunicar, mas não é necessariamente jornalista”

O diretor criativo da Leal Moreira, Otávio Marcos, acredita que influenciadores digitais não podem ser considerados jornalistas, mesmo quando possuem boa comunicação ou experiência diante das câmeras.
“Bom, na minha visão, influenciador não é jornalista. Mesmo que tenha um estudo básico, que a pessoa seja preparada, tenha uma boa leitura, tenha uma boa adicção, mesmo assim não vai ter a base que um jornalista tem de preparo de quatro anos de vivência de uma faculdade, de vivência com outros comunicadores, de ter no sangue a comunicação vivida por quatro anos, fora as experiências extras que a gente constrói ao longo da carreira. Um influenciador consegue comunicar com o público, mas não é necessariamente um jornalista.”
Segundo Otávio, a principal diferença entre as duas profissões está no processo de apuração e na responsabilidade da construção da notícia.
“O trabalho está muito na apuração, o influenciador ele está ali para dar a notícia no momento que for dado, o jornalista ele tem um olhar apurado, ele vai dar a notícia de uma forma mais informativa, mais densa, mais técnica, mas com olhar de fazer a pessoa pensar. O influenciador ele está muito ali por status, por like, e o jornalista está fazendo a arte de informar, não que necessariamente também não esteja atrás dos cliques, atrás de audiência, mas a missão principal, eu acredito, de um jornalista é passar a notícia de uma forma bem relevante, bem escrita, bem dita, bem comunicada”
Ele também avalia que o crescimento da presença de influenciadores em coletivas de imprensa e coberturas jornalísticas acaba enfraquecendo a profissão.
“Eu acredito que a presença de influenciadores faz cada vez mais perder espaço dentro do jornalismo. Eu acho que tem que ser separado e, se for fazer evento, faz um evento de influenciadores e, se for fazer coletiva de imprensa, é coletiva para profissionais de jornalismo. Acho que não tem que ter essa mistura porque isso enfraquece tanto a profissão”.
Para Otávio, uma das maiores transformações do jornalismo nos últimos anos foi justamente a necessidade de adaptação ao ambiente digital e à presença constante nas redes sociais.
“Eu acredito que a principal adaptação do jornalista nesse meio todo foi a sua presença física na internet. Antigamente o jornalista tinha a missão de passar a notícia e não ser a notícia. Então, hoje o jornalista, papel físico dele, tem um papel muito importante na internet porque a pessoa acaba criando um vínculo com o jornalista e acaba confiando nele como se fosse um amigo próximo, como se fosse alguma pessoa de confiança que está me passando aquela notícia”.
Ele acredita que o jornalista contemporâneo precisou desenvolver uma comunicação mais próxima e dinâmica para acompanhar a velocidade das plataformas digitais.
“Além da notícia que o jornalista prepara, ele tem que ser bem preparado fisicamente, uma boa aparência, tem que criar essa relação com o público na internet que pode ser qualquer pessoa, pode ser uma pessoa que está no interior do Amazonas e pode ser uma pessoa que está em uma cidade grande como São Paulo”.
Otávio também destaca que o jornalismo precisou acompanhar a rapidez exigida pelas redes sociais sem perder a clareza da informação.
“Podemos dizer que o jornalista hoje, além de ter que aparecer mais na internet, ele tem que saber dar a comunicação da internet também de uma forma bem clara”.
“O jornalismo sempre se adapta”

O jornalista Taymã Carneiro acredita que influenciadores e jornalistas exercem funções completamente diferentes dentro da comunicação, embora ambos ocupem hoje os mesmos espaços digitais.
“Jornalistas passam por uma formação acadêmica em Comunicação Social, são guiados por princípios éticos, ritos de apuração e pelo interesse público. Já influenciadores conhecem estratégias de engajamento e produzem conteúdos com potencial de alcance baseado nos algoritmos”, afirmou.
Para Taymã, a principal diferença entre os dois universos está no processo de apuração e na responsabilidade sobre a informação publicada.
“Jornalistas podem até se tornar influenciadores nas redes sociais; mas influenciadores precisariam de uma formação mais específica para atuarem como jornalistas. Muitas vezes, em busca de curtidas e visualizações, influenciadores acabam publicando informações sem checagem”, disse.
Ela também destacou que o jornalismo continua se reinventando diante das transformações tecnológicas. “O jornalismo nunca vai morrer. Historicamente, ele sempre se adapta. Foi assim com a TV, com a web, com as redes sociais e agora com o streaming”, declarou.
Segundo Taymã, o crescimento do conteúdo mobile e dos videorrepórteres mostra como a comunicação mudou nos últimos anos, mas reforça que a técnica continua sendo essencial.
“Hoje é possível fazer TV até com celular, mas a sensibilidade e o cuidado que um bom repórter cinematográfico possui continuam sendo o mais importante”, afirmou.
Sobre a presença de influenciadores em coletivas e eventos, Taymã acredita que o impacto depende do tipo de cobertura.
“Em eventos culturais e de entretenimento, essa pluralidade de conteúdos pode ser interessante. Mas em coletivas públicas, onde é preciso objetividade, transparência e responsabilidade, isso pode acabar gerando desserviço”, avaliou.
Ela também ressaltou que os jornalistas precisaram adaptar sua linguagem para sobreviver no ambiente digital.
“As redes sociais muitas vezes não convertem em leitura de reportagem. Então o jornalista acaba surfando nessa onda dos virais e das tendências para conseguir alcançar mais pessoas e mostrar seu trabalho”, concluiu.
“As empresas querem imediatismo”

A jornalista Bruna Lima, coidealizadora do podcast Chá de Canela, acredita que influenciadores digitais não podem ser considerados jornalistas e afirma que existe uma confusão crescente entre as duas profissões.
“Eu não acredito que influenciador pode ser considerado jornalista, porque são duas profissões totalmente diferentes, mas a gente percebe que atualmente essas profissões acabam sendo confundidas. O jornalista tem vários quesitos, a gente tem a ética do jornalismo, a gente tem a questão da apuração, a gente tem vários requisitos que a gente precisa para poder dar uma notícia”.
Segundo Bruna, o jornalismo possui critérios técnicos e responsabilidades sociais que não existem de forma regulamentada no universo dos influenciadores.
“Requisitos que eu não conheço, como nem existe uma regra oficial da profissão de influencer, de influenciador, mas, pelo que a gente vê, são totalmente diferentes as funções. Nós, jornalistas, temos uma responsabilidade social, precisamos ter todos os requisitos para dar uma notícia”.
Para ela, a principal diferença entre jornalistas e influenciadores está justamente na responsabilidade social e no poder de transformação da informação.
“O jornalista tem o poder de transformar a sociedade por meio do nosso trabalho, por meio da nossa apuração, por meio das nossas notícias. A gente tem o poder de fazer uma transformação social”.
Já sobre os influenciadores, ela acredita que a atuação acontece de forma mais opinativa e parcial.
“O influencer é um profissional que está ali dando dicas, opiniões e algo mais imparcial. A gente tem o quesito da imparcialidade na nossa profissão e eu vejo que o influencer é mais parcial, ele dá opiniões, ele dá dicas, ele é um outro universo que é totalmente diferente de um jornalista.”
Bruna também demonstra preocupação com o crescimento da presença de influenciadores em coletivas, festivais e coberturas jornalísticas.
“Eu já passei por algumas situações, inclusive. A gente percebe hoje, sim, que há uma grande demanda de influenciadores em coberturas e coletivas. Em muitos casos, essas pessoas, esses profissionais, acabam tendo uma regalia muito maior, um espaço muito mais privilegiado do que os próprios jornalistas”.
Segundo ela, isso acontece porque empresas passaram a priorizar alcance imediato e números nas redes sociais.
“As empresas querem imediatismo. Um influencer que tem mais de 100 mil seguidores, ou sei lá quantos mil seguidores, vai dar uma visibilidade maior nessa questão imediata”.
Ela acredita, porém, que o jornalista continua oferecendo um trabalho mais criterioso e responsável.
“O jornalista tem um olhar mais criterioso, ele vai saber as pautas necessárias, ele vai saber as perguntas certas, para que realmente seja um trabalho com credibilidade e um trabalho responsável.”
Bruna relembra inclusive experiências pessoais em eventos nos quais jornalistas acabaram ficando em segundo plano.
“Eu já participei de festivais em que a imprensa não tinha um espaço privilegiado, porque o espaço maior era dado para os influencers. Eu acho um desrespeito com a nossa profissão. Um equívoco fazer esse tipo de distinção, segregação”.
Para ela, o impacto desse movimento dentro do mercado da comunicação é profundo.
“Eu vejo que o impacto desse movimento na comunicação do jornalismo atualmente é bem grande. A gente vem percebendo que muitos influencers acabam ocupando espaços que, na minha opinião, deveriam ser de jornalistas.”
Bruna afirma que as empresas passaram a focar cada vez mais em visibilidade e números.
“As empresas estão focadas em números, quantidade. O principal objetivo é simplesmente fazer com que seus projetos, seus negócios, suas empresas sejam vistos. Se vai ter credibilidade ou não, é consequência.”
Apesar das críticas, ela reconhece que o jornalista precisou se adaptar às transformações digitais e às redes sociais.
“Eu acho que cada vez mais o jornalista precisa se aproximar da internet, ele precisa se adaptar a esse outro molde.”
Bruna conta que também viveu essa transição profissional.
“Eu sou uma repórter que comecei no impresso, fui fazendo a transição para o jornalismo digital e hoje estou tentando cada vez mais me aproximar das redes sociais”.
Mesmo ocupando esses espaços digitais, ela reforça que continua se enxergando como jornalista.
“Eu não me considero em nenhum momento uma influenciadora. Eu sou uma jornalista que hoje precisa estar nos espaços das redes sociais e entre outras plataformas, porque a gente precisa acompanhar os avanços”.
“Coletiva de imprensa é para jornalistas”

Aline Brelaz, diretora de comunicação do Instituto Dom Azcona e Irmã Henriqueta de Direitos Humanos (IDAH), acredita que influenciadores digitais não podem ser considerados jornalistas, principalmente pela ausência de formação técnica e preparo profissional exigidos pela área.
Segundo Aline, a principal diferença entre jornalistas e influenciadores está na base de formação social e humana construída ao longo da profissão.
“O jornalista é um profissional que tem uma formação com bases sociais, que estudou a base da sociologia, dos problemas econômicos e sociais da população, entre outros aspectos. Já o influencer só precisa saber usar as redes sociais, se posicionar diante de uma câmera e, na maioria das vezes, expor produtos para comercialização.”
Ela também demonstra preocupação com os impactos da falta de apuração no ambiente digital.
“A falta de compromisso com a boa apuração já levou muita gente que criou blogs, perfis, sem ter preparação, a divulgar muitas bobagens e fake news.”
Para Aline, o crescimento da influência digital dentro da comunicação parece ser um caminho irreversível.
“Infelizmente, parece irreversível. As redes sociais viraram a principal fonte de informação e não mais os veículos de jornalismo. Mesmo os veículos mais tradicionais ainda tendo penetração nos lares, como TV e rádio, é cada vez mais evidente a perda de espaço para os meios de comunicação digitais.”
Apesar disso, ela acredita que influenciadores podem atuar em divulgações promocionais, desde que exista uma separação clara entre criação de conteúdo e imprensa profissional.
“Apesar de ser jornalista das antigas, não vejo problema de influencers digitais serem contratados para eventos a fim de divulgar a programação. No meu ponto de vista, o problema é incluir em coletivas de imprensa. Porque, definitivamente, influencer digital não é imprensa.”
Aline também afirma que jornalistas que atuam nas redes sociais precisam continuar exercendo a profissão com responsabilidade e critérios técnicos.
“Pode até ter jornalista influencer nesse processo, mas deve se comportar como tal, apurar os fatos, questionar dados, requerer mais informações precisas e divulgá-las com responsabilidade.”
Ela relembrou ainda uma situação que viveu em uma coletiva e que considera símbolo da falta de preparo de alguns influenciadores nesses espaços.
“Imagine participar de uma coletiva séria, onde você está questionando um determinado diretor de uma indústria sobre a remuneração destinada à comunidade do entorno por fornecimento das ervas para produção dos cosméticos e uma influencer interrompe para perguntar se haverá brindes? Além de antiético, é constrangedor. Eu já passei por isso e me senti afrontada na profissão. Portanto, coletiva de imprensa é para jornalistas”.
Aline acredita que o jornalismo precisou passar por uma transformação completa para sobreviver às mudanças tecnológicas e ao ambiente digital.
“De forma total. Quem não se adaptou está fora do mercado. Até no jornalismo impresso, de onde sou oriunda, todos tiveram que se adaptar, pois nas redações ninguém atua mais só em um meio”.
Segundo ela, a integração digital já é definitiva e precisa ser acompanhada também pelas universidades.
“A integração é irreversível e a tendência, que já se sabe há quase duas décadas, é o fim definitivo do jornal de papel. A comunicação digital não é mais o futuro. É o presente”.
Ela finaliza defendendo melhorias na preparação acadêmica voltada ao jornalismo digital.
“Neste aspecto, as faculdades têm que rever a preparação, e muitas já estão neste processo. Sabemos que a preparação teórica dos jornalistas é fundamental para a postura profissional na sociedade. Mas a fase preparatória para o mercado de trabalho digital precisa melhorar urgente”.
A opinião do editor
Em meio à transformação acelerada da comunicação digital, uma discussão passou a ser tratada quase como tabu dentro do mercado: influenciador não é jornalista.
E isso não diminui a importância dos influenciadores.
Criadores de conteúdo possuem força de alcance, movimentam tendências, ajudam marcas, aproximam públicos e dominam uma linguagem que conversa diretamente com milhões de pessoas. O problema começa quando entretenimento passa a ocupar espaços que exigem técnica, responsabilidade e preparo jornalístico.
Existe uma diferença clara entre comunicar e exercer jornalismo.
O jornalista é treinado para apurar, ouvir diferentes lados, verificar informações, compreender impactos sociais, lidar com ética profissional e entender que uma informação mal publicada pode prejudicar pessoas, instituições e até comunidades inteiras. Não é apenas aparecer diante de uma câmera ou ter milhões de seguidores.
A internet democratizou a comunicação, e isso é positivo. Hoje qualquer pessoa pode produzir conteúdo, registrar acontecimentos e gerar debates relevantes. Mas democratizar a fala não significa eliminar a importância da formação profissional.
Quando veículos substituem jornalistas por influenciadores em coberturas oficiais, coletivas ou funções técnicas de reportagem, o recado transmitido para quem estuda, trabalha e vive o jornalismo diariamente é perigoso: o alcance vale mais do que a preparação.
Os episódios recentes envolvendo a escolha de Virginia Fonseca como repórter especial da Copa do Mundo e a entrevista de Gretchen em Manaus mostram justamente isso. Em muitos casos, falta preparo básico sobre linguagem, contexto, responsabilidade e até conhecimento do tema abordado.
Isso não significa que jornalistas não possam ocupar as redes sociais ou até se tornarem influenciadores. Pelo contrário. Hoje o jornalista também precisa dominar vídeo curto, redes sociais, engajamento e novas linguagens digitais. O jornalismo precisou evoluir para sobreviver.
Mas existe uma diferença importante: jornalista que vira influenciador continua carregando formação, técnica, ética e responsabilidade profissional. Já o influenciador que ocupa um espaço jornalístico sem esse preparo transforma informação em apenas mais um produto de consumo rápido.
E talvez seja exatamente esse o maior risco da comunicação atual: trocar profundidade por viralização.
O jornalismo pode se modernizar, adaptar formatos, dialogar com novas plataformas e conversar com diferentes públicos. O que não pode acontecer é a substituição da credibilidade pelo algoritmo.
Porque curtidas geram alcance. Mas apuração gera confiança.





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