Adeus a um ícone do Círio: morre Mízar Bonna, responsável por 11 mantos e inspiração para a Imagem Peregrina
Pesquisadora e artista paraense deixa legado histórico no Círio de Nazaré e revelou, em 2025, que seu rosto inspirou a Imagem Peregrina
Morreu nesta quarta-feira (29), aos 89 anos, a pesquisadora, escritora, jornalista e artista paraense Mizar Klautau Bonna, uma das maiores referências na história e iconografia do Círio de Nazaré.
Ao longo de décadas, Mízar construiu uma trajetória profundamente ligada à devoção de Nossa Senhora de Nazaré. Ela foi responsável pela criação de 11 mantos oficiais da Imagem Peregrina, trabalhos marcados pela presença de elementos amazônicos e por uma leitura artística única da fé paraense.
Em novembro de 2025, a pesquisadora concedeu uma entrevista ao perfil “Mãos de Outubro”, idealizado por Vitor Souza Lima, e trouxe à tona uma revelação guardada por mais de cinco décadas: segundo ela, as feições da imagem peregrina, esculpida em 1969, teriam sido inspiradas em uma fotografia sua ainda jovem.
No depoimento, Mízar relembrou o processo de criação da imagem e a participação indireta que teve na construção da iconografia que hoje emociona milhões de fiéis: “O padre Miguel, desde que chegou, já olhava para a imagem e via que não tinha bem as características de Nossa Senhora de Nazaré. A basílica precisava ter uma imagem para as saídas. Nós vivíamos de favor, pedindo emprestado”.
Ela contou que a decisão de encomendar uma nova imagem partiu do religioso, que buscou um artista na Itália para executar a escultura: “Ele disse: ‘eu vou encomendar’. Tinha um artista na Itália e um padre que ia levar as orientações. E ele incluiu a foto de uma moça, do tipo das mulheres da cidade de Nazaré”.
Mízar revelou que, inicialmente, questionou a escolha de referências, mas acabou cedendo ao pedido: “Eu ainda perguntei se não podia levar foto de outras mulheres. Mas ele insistiu. Eu levei uma foto 3x4 e pedi: ‘não copie meu retrato, porque pode me causar problema’”.
Segundo ela, o artista fez adaptações, mas manteve traços semelhantes: “Ele fez pequenas modificações. O lábio, por exemplo, não era tão acentuado e ele mudou. Mas ficou o tipo”.
A pesquisadora afirmou que reconheceu a si mesma na imagem ao longo dos anos, mas preferiu manter silêncio: “Eu fiquei calada esse tempo todo. Me segurando, me segurando. Estou com 89 anos… guardei isso por mais de 50 anos”.
O velório de Mízar Bonna acontece na Max Domini, em Belém, até às 12h desta quinta-feira (30).
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