Entre crescimento e dificuldades: o desafio de manter festas LGBTQIA+ em Belém
Entre crescimento e desafios, produtores relatam os bastidores de fazer eventos LGBTQIA+ em Belém
Crédito: George Corrêa A cena de festas voltadas ao público LGBTQIA+ em Belém vive um momento de transformação. Entre avanços na diversidade de eventos e desafios ligados a custos, patrocínio e mercado, produtores culturais avaliam que o segmento segue em crescimento na capital paraense, embora ainda enfrente obstáculos para se consolidar plenamente.
Em entrevista ao PORTAL VIGGO, o produtor cultural George Correa afirma que a cena atual é mais plural do que em anos anteriores, com diferentes estilos musicais e propostas de eventos voltadas à comunidade.
Segundo ele, hoje existe uma agenda mais diversa de festas e espaços voltados ao público LGBTQIA+ na cidade.
“Avalio a cena LGBTQIA+ de Belém hoje como bastante diversa e em crescimento. Temos ótimos exemplos, como a Move, que é atualmente a maior boate LGBTQIA+ do Pará, e a Space Club, que mesmo sendo relativamente nova já vem entregando eventos de muita qualidade”, afirma.

Crédito: George Corrêa
George destaca ainda o papel das produtoras independentes na construção dessa diversidade cultural.
“Se você gosta de pop, tem evento. Se prefere funk, também tem. Tribal, house, eletrônica… tudo isso faz parte dessa cena. Essa variedade mostra como o público LGBTQIA+ tem conquistado cada vez mais espaço na cidade”, completa.
Para o produtor, a diferença em relação ao passado é clara: antes, o público precisava se adaptar aos poucos eventos disponíveis. Hoje, segundo ele, já existem espaços pensados diretamente para a comunidade.
“Antigamente, muitas vezes nós precisávamos nos adaptar aos eventos que existiam. Hoje o cenário é diferente: temos espaços pensados para a nossa comunidade, com música, artistas e experiências que dialogam diretamente com quem somos”, explica.
Custos e logística são grandes desafios
Apesar do crescimento, produzir eventos desse tipo em Belém ainda envolve desafios consideráveis. De acordo com George Correa, a logística para trazer atrações e estruturar festas na região Norte acaba elevando os custos de produção.
“Tudo para cá acaba sendo mais caro: passagens aéreas, cachês, hospedagem e toda a estrutura necessária para receber artistas e equipes”, afirma.
Segundo ele, essas despesas acabam refletindo no valor final do ingresso. “Muitas vezes não é que o ingresso seja caro em comparação com outras cidades, mas ele acaba ficando acima do que parte do público local está acostumada a pagar”, explica.

Crédito: George Corrêa
Mesmo assim, os produtores continuam buscando elevar o nível das festas na cidade. “Nós produtores buscamos constantemente trazer experiências e atrações que muitas vezes o público só veria em grandes capitais. Belém também tem capacidade de produzir eventos de alto nível”, diz.
Patrocínio ainda é desafio
Outro ponto apontado pelo produtor é a dificuldade de atrair patrocinadores para eventos voltados ao público LGBTQIA+ na região Norte.
Segundo ele, grandes marcas costumam investir nesse tipo de iniciativa em outras regiões do país, mas ainda há uma concentração de investimentos no eixo Sul-Sudeste.
“Em Belém muitas vezes enfrentamos dificuldade para atrair grandes patrocinadores, mesmo quando falamos de marcas que já investem fortemente em eventos LGBTQIA+ no Brasil”, afirma.

Crédito: George Corrêa
Para George, o Norte ainda possui um potencial pouco explorado pelas empresas. “Enquanto isso, o Norte do país, que é uma região extremamente rica culturalmente e com um público muito engajado, acaba ficando de fora dessas ações”, avalia.
Produzir eventos envolve riscos
Além dos custos, o risco financeiro também faz parte da rotina de quem trabalha com produção de eventos. “Produzir eventos hoje envolve um risco financeiro considerável. Muitas vezes fazemos investimentos altos para entregar um evento de qualidade, com boa estrutura, artistas relevantes e uma experiência diferenciada para o público”, explica.
O retorno, segundo ele, nem sempre é garantido. “Às vezes você acerta no artista, escolhe uma boa data, trabalha um preço de ingresso acessível e ainda assim o resultado não é exatamente o esperado. A produção de eventos tem muito dessa imprevisibilidade”, afirma.
Mesmo diante das incertezas, o produtor acredita que a cena segue avançando na capital paraense. “Hoje vemos muito mais casas noturnas e produtoras trazendo atrações nacionais voltadas ao público LGBTQIA+, o que mostra um amadurecimento da cena em Belém”, diz.
Entre os exemplos citados por ele estão apresentações de artistas e DJs ligados à cultura drag e à cena pop nacional.
União entre produtores e apoio do público
Para fortalecer ainda mais esse mercado, George Correa acredita que a colaboração entre produtoras e o engajamento do público são fundamentais.
“Muitas produtoras e casas noturnas têm buscado manter um relacionamento mais colaborativo, pensando em fortalecer a cena como um todo”, afirma.

Crédito: George Corrêa
Segundo ele, eventos realizados em parceria já mostram resultados positivos. “Quando o público apoia, comprando ingressos, divulgando nas redes sociais ou simplesmente marcando presença, isso cria um ciclo saudável que permite que a cena cresça e se profissionalize cada vez mais”, explica.
Mudança social também impacta a noite
Para o produtor cultural Charles Cardoso, outro fator importante é a mudança social que vem acontecendo ao longo dos anos.
Segundo ele, a presença da comunidade LGBTQIA+ em diferentes espaços da sociedade ampliou a forma como as pessoas se relacionam com a noite e com o entretenimento.
“Antigamente o mundo gay era muito restrito às baladas voltadas só para esse público. Hoje não. Você vai a um show, vai a um forró, e o público LGBTQIA+ também está lá”, afirma.

Crédito: George Corrêa
Para Charles, essa transformação está ligada diretamente às lutas por direitos e visibilidade.
“A militância por direitos iguais fez com que hoje as pessoas ocupem todos os espaços. Você vai ao shopping, vê casais héteros e casais gays convivendo normalmente. Isso mostra como a sociedade está mudando”, diz.
Ao mesmo tempo, ele aponta que os custos da produção cultural continuam sendo um desafio para quem organiza eventos.
Segundo o produtor, muitas despesas aumentaram ao longo dos anos, enquanto o valor dos ingressos muitas vezes precisa permanecer semelhante para que o público consiga frequentar as festas.
“Aumenta energia, aumenta aluguel, aumenta o custo de tudo. Só que o valor da bilheteria muitas vezes precisa ser parecido com o de anos atrás, porque se subir muito o público acaba não indo”, explica.
Espaço de cultura, trabalho e diversidade
Para os produtores, as festas LGBTQIA+ também cumprem um papel importante para a cultura e para a economia local.
George Correa destaca que esses eventos criam oportunidades para artistas e profissionais da cidade. “Belém possui uma enorme diversidade de talentos em diferentes nichos culturais, e as festas LGBTQIA+ acabam sendo um espaço importante para que essas pessoas possam se expressar e mostrar seu trabalho”, afirma.
Ele também lembra que por trás de cada evento existe uma cadeia de profissionais envolvidos. “Existe uma grande estrutura por trás: produção, equipe de staff, som, iluminação, segurança, bar, entre tantos outros profissionais que fazem tudo acontecer”, diz.

Crédito: Move
Para ele, o impacto vai além do entretenimento. “Quando um evento LGBTQIA+ acontece, ele gera trabalho, movimenta a economia local e fortalece a diversidade cultural da cidade”, conclui.
Assim, entre desafios logísticos, custos elevados e busca por mais apoio do mercado, a cena de festas LGBTQIA+ em Belém segue em construção, sustentada pelo trabalho de produtores, artistas e pelo público que continua ocupando as pistas e celebrando a diversidade na capital paraense.









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