Reportagem do Fantástico aponta suspeita de corrupção envolvendo prefeito de Ananindeua
Reportagem exibida pelo Fantástico aponta suspeita de que empresas contratadas pela Prefeitura de Ananindeua ajudaram a pagar uma mansão de luxo no litoral do Ceará
Crédito: Reprodução Uma reportagem exibida neste domingo (8) pelo programa Fantástico revelou detalhes de uma investigação que aponta suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e uso de recursos públicos desviados envolvendo o prefeito de Ananindeua, Daniel Santos.
Segundo a apuração apresentada pela reportagem da TV Globo, uma mansão localizada em um condomínio de luxo à beira-mar no município de Fortim, no litoral do Ceará, está no centro das investigações conduzidas pelo Ministério Público do Estado do Pará.
Mansão de luxo é alvo da investigação
De acordo com os investigadores, o imóvel, avaliado em cerca de R$ 4 milhões já mobiliado, teria sido pago por empresas e pessoas ligadas à administração municipal de Ananindeua. O caso foi descrito por promotores como uma espécie de “vaquinha da corrupção”.
A casa fica em um condomínio de alto padrão no litoral cearense e corresponde ao imóvel número 4 do empreendimento, próximo à portaria. No lançamento do condomínio, a residência funcionava como “casa modelo”, totalmente equipada e decorada para atrair compradores.
Sem mobília, o imóvel teria valor estimado em cerca de R$ 2,5 milhões. Já completamente mobiliado e pronto para uso, o preço ultrapassaria os R$ 4 milhões. O contrato de compra e venda foi firmado em nome da empresa Agropecuária JD, que pertence ao prefeito.
Pagamentos teriam vindo de empresas contratadas pela prefeitura
A investigação identificou um padrão nas movimentações financeiras que levantou suspeitas. Segundo o Ministério Público, empresas que prestam serviços ou fornecem produtos à prefeitura de Ananindeua recebiam pagamentos do município e, pouco tempo depois, transferiam parte do valor para pagar parcelas do imóvel no Ceará.
Um dos exemplos citados envolve a empresa Neo BRS, fornecedora de materiais escolares para a Secretaria de Educação. Em setembro e outubro de 2024, a empresa emitiu duas notas fiscais que somam R$ 1.488.137 referentes à venda de cadernos, canetas, réguas e tesouras para a prefeitura.
De acordo com os documentos analisados pelos investigadores, o pagamento foi feito pela prefeitura e, no dia seguinte, a empresa transferiu R$ 866 mil da mesma conta para quitar uma parcela da casa investigada.
Outro caso envolve a empresa Ferreira Comercial, fornecedora de produtos de limpeza para a rede municipal de ensino. Em outubro de 2024, a companhia emitiu uma nota fiscal de R$ 521 mil. No mesmo dia em que recebeu o pagamento da prefeitura, teria transferido R$ 250 mil para pagar outra parcela do imóvel.
A equipe da reportagem do Fantástico esteve nos endereços informados pelas empresas, mas afirmou não ter encontrado representantes para comentar as acusações.
Investigação também cita agentes públicos
O Ministério Público também aponta a possível participação de pessoas ligadas à administração municipal. Um dos casos citados envolve o vereador Alexandre Gomes, que assumiu a Secretaria de Habitação de Ananindeua em fevereiro de 2024.
Segundo os investigadores, cinco dias após assumir o cargo, uma construtora ligada ao parlamentar realizou dois depósitos que somam R$ 1 milhão para pagar parcelas da casa no Ceará. O vereador não respondeu aos contatos da reportagem.
Evolução patrimonial levanta suspeitas
O procurador-geral de Justiça do Pará, Alexandre Tourinho, afirmou que o Ministério Público investiga uma evolução patrimonial considerada incompatível com a renda declarada do prefeito.
Entre os gastos suspeitos identificados pelos investigadores estão pagamentos de combustível e óleo diesel para uma fazenda ligada ao gestor, parcelas de uma aeronave particular e outros bens de alto valor.
Depoimentos colhidos durante a investigação indicam que diferentes empresas teriam contribuído para pagar cotas de um avião avaliado em cerca de R$ 10,9 milhões, registrado em nome da Agropecuária JD.
Durante buscas realizadas no Pará e no Ceará, investigadores também encontraram aproximadamente R$ 4,1 milhões em relógios de luxo em um apartamento ligado ao prefeito em Fortaleza. Entre as marcas estavam peças das grifes Rolex e Patek Philippe, consideradas indícios de possível lavagem de dinheiro.
Foi nesse mesmo apartamento que os agentes localizaram o contrato de compra da casa em Fortim, o que levou os investigadores até o imóvel.
Caso chegou ao Supremo Tribunal Federal
Inicialmente, as investigações tramitavam na Justiça do Pará, mas parte do processo foi levada ao Supremo Tribunal Federal após a defesa do prefeito tentar incluir no caso a esposa dele, a deputada federal Alessandra Haber, que possui foro privilegiado. Segundo o Ministério Público, ela não é investigada.
Promotores também afirmam que, após uma operação policial, o prefeito teria tentado transferir a casa de Fortim para o nome da esposa. A escritura, no entanto, não foi concluída porque seria necessário comprovar a origem dos recursos usados na compra.
Agora caberá à ministra Cármen Lúcia decidir se o caso continuará no Supremo ou se retornará à Justiça do Pará.
Bloqueio de bens
De acordo com a reportagem, Daniel Santos declarou à Justiça Eleitoral, em 2024, um patrimônio de R$ 4,8 milhões. Apesar disso, o Ministério Público pediu o bloqueio de mais de R$ 130 milhões em bens ligados ao prefeito.
Entre os patrimônios citados estão uma fazenda avaliada em cerca de R$ 16 milhões, imóveis, uma aeronave e outros bens de alto valor.
O ministro Alexandre de Moraes determinou a suspensão temporária do processo até a análise do pedido apresentado pela defesa do prefeito, que solicita a anulação das investigações alegando irregularidades na atuação do Ministério Público.
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