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Rio de Janeiro,23/10/2026

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    Bispos católicos afirmam que candidatura de Flávio Bolsonaro ameaça a democracia e contraria ensinamentos da Igreja

    Carta assinada por 54 religiosos critica propostas do senador sobre direitos humanos, soberania nacional, armas e meio ambiente; documento pede que católicos não se omitam no segundo turno de 2026


    Bispos católicos afirmam que candidatura de Flávio Bolsonaro ameaça a democracia e contraria ensinamentos da Igreja Crédito: Pedro Kirilos

    Um grupo de bispos católicos de diferentes regiões do Brasil divulgou uma carta pública em que afirma que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República ameaça princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja, além da democracia, da soberania nacional e da promoção do bem comum. O documento, intitulado Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, reúne 54 assinaturas em sua versão mais recente.


    Embora não cite nominalmente os candidatos, o texto faz críticas diretas à trajetória política e às propostas de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Os religiosos afirmam que a candidatura do senador apresenta contradições com os ensinamentos católicos em áreas como trabalho, combate à pobreza, direitos humanos, meio ambiente e respeito às instituições democráticas.


    A carta parte de um trecho da encíclica Magnifica Humanitas, do papa Leão XIV, que aborda situações em que a neutralidade não seria uma postura justa. Com base nessa reflexão, os bispos afirmam que não podem permanecer em silêncio diante do cenário eleitoral.


    “Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro”, escrevem os signatários, ao fazerem referência às consequências históricas do silêncio diante de ameaças totalitárias.


    Bispos apontam sete contradições da candidatura


    O documento apresenta sete áreas em que, segundo os religiosos, a candidatura de Flávio Bolsonaro entra em conflito com princípios defendidos pela Igreja Católica.


    No campo trabalhista, os bispos criticam o posicionamento do senador contrário ao fim da escala 6x1 e mencionam a proposta de remuneração por hora trabalhada. Para os religiosos, essas ideias desconsideram a dignidade dos trabalhadores.


    Em relação à soberania nacional, a carta questiona declarações e propostas atribuídas ao candidato envolvendo os Estados Unidos, incluindo uma suposta disposição de submeter interesses brasileiros ao governo norte-americano, apoiar medidas de pressão comercial contra o Brasil e permitir a exploração de terras raras por empresas estrangeiras.


    Na área social, os signatários demonstram preocupação com o histórico do partido de Flávio Bolsonaro em relação a programas de combate à pobreza. O texto cita a exortação apostólica Dilexi Te e critica posições que, segundo os bispos, se opõem a políticas de proteção às populações mais vulneráveis.


    A ampliação do acesso a armas também é questionada. Os religiosos associam a proposta à política armamentista adotada durante o governo de Jair Bolsonaro e defendem uma perspectiva de paz incompatível com o incentivo à disseminação de armamentos.


    Meio ambiente, tortura e democracia


    A carta também critica o posicionamento atribuído a Flávio Bolsonaro sobre a crise climática e a possibilidade de continuidade das políticas ambientais do governo de seu pai. Os bispos mencionam a legislação de licenciamento ambiental aprovada em 2025, conhecida por críticos como “Lei da Devastação”.


    Outro ponto abordado é o respeito aos direitos humanos. Os religiosos afirmam que o senador é publicamente favorável à tortura e mencionam homenagens feitas por integrantes de sua família ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador durante a ditadura militar brasileira.


    No campo democrático, o documento alerta para declarações do senador sobre mudanças na Constituição e para o risco de concentração de poder caso sua candidatura vença a eleição. Segundo os bispos, a possibilidade de governar com maioria no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF) poderia criar condições para uma “usurpação do poder”.


    No início de outubro, Flávio Bolsonaro declarou que pretende aproveitar uma maioria de direita no Congresso para “mudar a Constituição”. A carta considera esse tipo de posicionamento motivo de preocupação diante da necessidade de preservar a ordem constitucional.


    Documento diferencia candidatura adversária


    Sem mencionar diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os bispos também fazem uma avaliação comparativa entre as candidaturas que disputam o segundo turno.


    Segundo o texto, a candidatura adversária, apesar de estar sujeita a críticas, demonstrou responsabilidade com os mais pobres e com a preservação da chamada Casa Comum, além de atuar dentro dos limites da ordem democrática e respeitar a Constituição.


    “Gostar ou não do atual governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, afirmam os religiosos.


    Ao final, os signatários pedem que os católicos participem da votação e considerem as implicações éticas e sociais de suas escolhas eleitorais.


    Os bispos afirmam estar em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e alinhados à mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da entidade na quarta-feira (21). Na ocasião, a conferência defendeu a Constituição, o respeito às urnas e a avaliação da trajetória dos candidatos pelos eleitores.


    Apesar da aproximação com as posições da entidade, a carta sobre as candidaturas presidenciais é uma iniciativa dos religiosos que a assinam e não representa um posicionamento oficial da CNBB.


    Entre os signatários estão dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT); dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO); dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo de Feira de Santana (BA); e dom Paulo Mendes Peixoto, arcebispo de Uberaba (MG).


    A lista reúne representantes de dioceses e arquidioceses da Amazônia, do Nordeste, do Sudeste, do Centro-Oeste e do Sul do país.


    Atritos entre Flávio Bolsonaro e setores da Igreja


    A divulgação da carta ocorre em meio a outros episódios de tensão entre Flávio Bolsonaro e setores da Igreja Católica durante a campanha eleitoral.


    Em setembro, o senador atribuiu a pessoas ligadas à CNBB a circulação de um boato envolvendo Nossa Senhora Aparecida, acusação negada pela entidade. No mesmo período, a Comissão Brasileira Justiça e Paz, organismo vinculado à conferência, apresentou aos bispos um relatório que reuniu 58 episódios de ataques da extrema direita contra a instituição e os católicos desde 2018.


    Com a manifestação pública, os 54 bispos reforçam o debate sobre o papel das instituições religiosas diante das eleições e defendem que os princípios de justiça social, dignidade humana e preservação democrática sejam considerados pelos eleitores católicos no segundo turno presidencial de 2026.


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