O Brasil sempre foi latino, e o Norte nunca esqueceu disso
Muito antes do reconhecimento internacional do pop latino, a Amazônia, especialmente o Pará, já vivia e produzia uma identidade musical profundamente conectada à América Latina
Crédito: Reprodução / Portal Viggo No último fim de semana, a revista Rolling Stone publicou uma matéria afirmando que o Brasil teria finalmente entendido que sempre foi latino graças ao fenômeno global Bad Bunny.
A provocação gera debate, e ele é necessário.
Antes de tudo, é preciso reconhecer: Bad Bunny fez história. Ao representar a América Latina em um dos maiores palcos do entretenimento mundial, o Super Bowl, o artista porto-riquenho levou ao centro da indústria cultural global uma identidade latina orgulhosa, política e sem pedir tradução. Sua apresentação exaltou idiomas, ritmos e narrativas historicamente colocadas à margem do mainstream norte-americano.
Mas afirmar que o Brasil descobriu agora sua latinidade revela mais sobre o olhar internacional, e até sudestino, do que sobre o próprio país.
Porque, enquanto parte do Brasil ainda discutia se era ou não latino, o Norte nunca teve essa dúvida.
A latinidade sempre esteve viva nas margens amazônicas, nos portos e nas fronteiras culturais que conectam o Pará ao Caribe, aos Andes e à Pan-Amazônia. Em Belém, guitarras dialogam naturalmente com cúmbia, merengue e zouk há décadas. O tecnobrega, o carimbó, a lambada e a guitarrada nasceram justamente desse encontro entre o amazônico e o latino, uma troca cultural construída por circulação popular, rádio, imigração e comércio fluvial.
Muito antes de playlists globais reconhecerem essa ponte sonora, artistas paraenses já traduziam essa identidade em música. Muito antes de playlists globais reconhecerem essa ponte sonora, artistas paraenses já traduziam essa identidade em música. O produtor e guitarrista Manoel Cordeiro teve papel fundamental ao introduzir e misturar cúmbias, merengues e lambadas na música produzida no Pará, ajudando a consolidar uma sonoridade amazônica profundamente conectada ao restante da América Latina.
Esse legado segue vivo na nova geração. O cantor, compositor e guitarrista Felipe Cordeiro, filho de Manoel Cordeiro, tornou-se um dos principais nomes responsáveis por atualizar essa herança latina amazônica, dialogando com pop, guitarrada, cúmbia e ritmos caribenhos em uma estética contemporânea que conecta tradição e modernidade.
O guitarrista Aldo Sena desenvolveu uma linguagem instrumental marcada por diálogos diretos com ritmos caribenhos, enquanto o cantor e compositor Félix Robatto representa a continuidade contemporânea dessa herança latina, atualizando sonoridades amazônicas dentro de uma estética moderna e urbana.
Nesse contexto, a trajetória da cantora Joelma também se insere de forma evidente dentro da música latina. O Calypso, gênero que a projetou internacionalmente, tanto à frente da Banda Calypso quanto em carreira solo, é resultado direto da fusão entre ritmos regionais do Pará, como carimbó, lambada e guitarrada, com influências caribenhas e latino-americanas como cúmbia, merengue e o próprio calipso.
O Norte do Brasil nunca precisou que o mundo explicasse sua identidade. Ela sempre esteve presente nos mercados populares, nas aparelhagens, nas festas e nas produções independentes que circularam por décadas longe do eixo dominante da indústria cultural.
Talvez o que esteja acontecendo agora não seja o Brasil descobrindo que é latino. Talvez seja o mundo finalmente percebendo que existe uma América Latina que fala português, e que pulsa fortemente na Amazônia.
Bad Bunny não criou essa consciência. Ele ajudou a amplificá-la em escala global, e isso merece reconhecimento. Mas reduzir a latinidade brasileira a um despertar recente ignora histórias inteiras construídas longe dos grandes centros midiáticos.
O Brasil sempre foi latino.
O Norte sempre soube disso.
E o Pará, há muito tempo, já dança nesse ritmo.









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